Death Grips – Bottomless Pit

Escrito por em 06/06/2016

Há de se ressaltar duas coisas importantes sobre o som da Death Grips antes de começarmos essa resenha de fato. A primeira é que estamos diante de uma das bandas mais interessantes da década, queridinha da crítica e de personalidades importantes da música como Björk, David Bowie e Iggy Pop. A segunda, e muito mais importante, é que se você ainda não teve a curta e ligeira sensação de ter o seu tímpano implodindo com tamanha intensidade e descontrução musical, aproveite agora a sua chance e solta o play aí que a própria banda disponibilizou o Bottomless Pit na íntegra no Youtube.

Pouco tempo depois da espera pelo lançamento oficial de The Powers That B (2015), álbum duplo e colocado como último pela própria banda antes de seu curto hiato, os californianos da Death Grips já estão de volta com material novo em um daqueles discos que mal são lançados e já tem arsenal pra conquistar a alcunha de melhor do ano. Formada pelos produtores Zach Hill e Andy Morin, e pelo rapper MC Ride, a banda hoje desfruta da incrível capacidade de não ser nem um pouco óbvia, coisa bem difícil em se tratando de tempos de internet, em que a cultura do “copia e cola” parece reinar. Alguns vão dizer que é hip hop intenso e experimental tipo Run The Jewels, alguns vão dizer que a banda tem no industrial da Nine Inch Nails seu maior norte, outros, enfim, podem sugerir que os ingleses da Prodigy já fizeram esse tipo de loucura de forma muito mais efetiva nos anos 90. Na real, uma postura muito justa, nesse caso, seria aceitar que qualquer tipo de classificação é uma mera perda de tempo em se tratando do som da Death Grips, visto que eles têm nos surpreendido ainda mais a cada ano.

Quinto disco da curta e prolífica discografia da banda, o recém-lançado Bottomless Pit talvez seja o disco mais “acessível” dos caras. E calma lá, não tô falando aqui que você vai digerir facilmente esse tipo de música como hits mascadinhos. O lance do “acessível” é só mesmo porque se você pegar pra ouvir discos como No Love Deep Web (2012) e Government Plates (2013), a tarefa pode ser ainda mais complicada. Em Bottomless Pit, MC Ride continua mandando a real pra aqueles que conseguem entender o que ele tá cantando. Algo como críticas à cultura inútil de consumir lixo o dia inteiro na internet acaba sendo um tanto genérico pra sintetizar tudo o que o rapper fala nas músicas, mas a lírica segue forte nesse sentido, somada às boas tiradas com a banalização da indústria musical e com a relação da banda com aquilo que ela mesma produz.

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A abertura com “Giving Bad People Good Ideas” é de matar, cortar a cabeça e expor em praça pública; vale cada segundo da pancadaria que segue no verso cantado e repetido por Clementine Creevy (Cherry Glazerr); e dá início ao disco de forma quase apoteótica, é também uma enorme placa com o aviso, em letras garrafais, que diz “vaza logo se não tá a fim de ficar”. “Hot Head” expõe no contraste de momentos musicais a sua maior qualidade; varia linhas absurdas com um refrãozinho bem “mela cueca” quando comparado com tudo o que banda já produziu. “Spikes” e “Warping” nos levam diretamente pra aquela confusão e intensidade meio drogada dos anos 90, quando filmes como “Trainspotting” falavam mais de uma geração do que os acadêmicos falavam em anos de papelada universitária. Os versos de deboche do single “Eh” vêm como um respiro em meio ao desafio de escutar o disco inteiro na íntegra, conforto que logo vai embora com o batidão eletrônico de “Bubbles Buried In The Jungle”.

Se “Trash” dá início ao lado B do disco com o tema preferido da banda, sobra pras batidas mais orgânicas e o riff incrível de “Ring a Bell” retomarem os pontos altos do álbum. “808080” é um hip hop sinistro, mas que não deixa de expor as características do grupo mais ligadas ao universo da música pop também. Por fim, a faixa título do álbum finaliza os mais de 40 minutos de audição e faz jus à intensidade do punk rock cru e verdadeiro; segue também como uma das favoritas do disco e mostra que a banda está mesmo longe de ser colocada no balaio da música eletrônica empastelada dos dias de hoje.

Dificilmente você vai encontrar por aí outra banda fazendo, com tamanha qualidade, o que esses três malucos estão fazendo. Se o rótulo vazio do experimental pode cair muito bem pra aquela bandinha do vizinho sem noção que tá batendo cada vez mais forte na bateria, pode ser que ele também seja finalmente útil quando compreendido em seu sentido literal, e aplicado a alguns casos como este. Se ainda nunca ouviu, tenta a sorte e experimenta que quem sabe o som do trio não seja a porta de entrada pra você mandar embora toda aquela caretice de vez. Se já conhece, boa sorte, deixa esse som aí no talo que a Death Grips conseguiu mais uma vez.

Raul Ribeiro, programador musical na Rádio UFSCar


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta, às 15h30. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no sábado, às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

1 – Giving Bad People Good Ideas

2 – Hot Head

Terça-feira

3 – Spikes

4 – Warping

Quarta-feira

5 – Eh

6 – Bubbles Buried In This Jungle

7 – Trash

Quinta-feira

8 – Houdini

9 – BB Poison

10 – Three Bedrooms In A Good Neighborhood

Sexta-feira

11 – Ring a Bell

12 – 808080

13 – Bottomless Pit

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