DARK COMEDY – OPEN MIKE EAGLE

Escrito por em 18/08/2014

Se anos assistindo a sitcoms me ensinaram alguma coisa, é que há uma certa magia humorística no cotidiano. O rapper norte-americano Open Mike Eagle, produto natural de uma geração que cresceu à frente da TV, percebeu isso muito bem. Seu quarto álbum, “Dark Comedy”, é uma aula sobre a força crítica da comédia stand-up situacional disfarçada de art rap.

Em seu novo trabalho, Mike Eagle lança seu olhar sobre o cotidiano para fazer rir e refletir. Com a ajuda de mais de 11 produtores pelo álbum todo (prática comum entre grandes nomes do hip hop norte-americano), as bases que acompanham suas ácidas letras são diversas. Há aproximações do gênero com o indie lo-fi, como na faixa título de abertura; referências aos parceiros da Odd Future em “Doug Stamper”; homenagens ao hip hop das antigas, e versões satíricas do gangsta rap atual, tudo muito bem montado, formando um discurso coeso, apesar de diverso.

O lance é que, no trabalho de Mike Eagle, as bases quase sempre são empregadas de forma a se relacionarem com a letra, geralmente satirizando algum gênero ou tipo específico de pessoa que você encontra por aí – tudo feito com um bom humor à la Seinfeld. Em “Qualifiers”, por exemplo, a roupagem pop ajuda a arrancar boas risadas quando Mike rima “Get Up And Dance” com “I’ll go whipe my sons ass / And get shit on my hands”. Ainda na mesma faixa, Mike ainda narra uma viagem sua à África em que os habitantes do local ficaram surpresos pela falta de “bitches and hoes” nas suas letras, e aproveita o refrão para enterrar o gangsta rap de vez com a desconstrução do ego inflado (“we’re the best mostly / sometimes the tightest kinda / respect my qualifiers”). A sátira à ostentação do impossível volta a ser abordada na música seguinte, “Thirsty Ego Raps”, de título autoexplicativo. Aliás, esse tema é recorrente durante Dark Comedy.

Mas não é só de crítica ácida que vive Mike. Há momentos introspectivos que brilham durante o álbum, como na singela “Very Much Money”, que, com referência a Adventure Time, vê um Open Mike Eagle cantando sobre as coisas fantásticas que seus amigos podem fazer, mas logo se lembra, cabisbaixo, que nenhum deles recebe dinheiro por isso. “Big Pretty Bridges”, faixa de encerramento do álbum, também segue a mesma onda introspectiva ao narrar acontecimentos do cotidiano. Mas, é claro, na maioria das vezes Mike opta por manter o bom humor, evitando parecer amargo, às vezes arrancando boas risadas com o pastelão mesmo, como em “Doug Stamper (Advice Raps)”, em que recomenda aos rappers brancos de sua vizinhança a “pararem de cantar com sua voz do bairro”, e logo em seguida faz sua impressão dos caras com indistinguíveis “HARR RAAR RAAR RAAR RAAAGH”, lembrando a todos que, mais que um disco de hip hop, Dark Comedy é um show de stand-up.

Por fim, o quarto trabalho de Open Mike Eagle merece ser conferido. Seja pelas bases criativas que fogem do óbvio da produção hip hop norte-americana, seja pelas rimas bem pensadas e o flow excepcional do artista, ou mesmo pela quantidade tarantinesca de referências à cultura pop em suas músicas. Dark Comedy é um verdadeiro ensaio sobre o poder transformador do humor e da música combinados.

Henrique Gentil, bolsista de Programação Musical.

A seguir, a lista de músicas que você confere de segunda a sexta, às 16h00, na Rádio UFSCar.

Segunda-feira

1. Dark Comedy Morning Show

2. Qualifiers

Terça-feira

3. Thirsty Ego Raps

4. Golden Age Raps

5. Very Much Money (Ice King Dream)

Quarta-feira

6. Doug Stamper (Advice Raps)

7. Jon Lovitz (Fantasy Bookin Yarn)

8. Idaho

Quinta-feira

9. Sadface Penance Raps

10. A History Of Modern Dance

11. Deathmate Black

Sexta-feira

12. Informations

13. Big Pretty Bridges (3 Days Off In Alburquerque)


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