Damon Albarn – Everyday Robot

Escrito por em 02/06/2014

Para quem está acostumado com a imagem e com o som pop descontraído do Damon Albarn como líder dos Blur e do Gorillaz, talvez estranhe esse que pode ser considerado o primeiro álbum solo dele. Pela primeira vez ele se expõe e revela os seus sentimentos mais íntimos, quase uma autobiografia resumida em 12 faixas, que abordam temas que sempre fizeram parte da personalidade dele e que, neste trabalho, ganham visibilidade: o medo da solidão e do vazio, a dependência, a perda do contato humano e a distância da realidade numa sociedade cada dia mais virtual. Não estamos mais na frente do jovem que se tornou famoso naquela onda que surgiu nos anos 90, rotulada de brit pop, mas sim, de um homem de 46 anos que enfrenta os seus medos e inseguranças, numa abordagem existencialista, ele olha o passado e o presente de maneira crítica, dominado por uma melancolia constante, que está presente no disco inteiro, com exceção da faixa “Mr. Tembo”, único episódio no qual podemos encontrar o lado mais solar do Damon.

Começando pela faixa título que abre o disco (talvez uma citação da música “Everyday people”, hit do Sly and the Family Stone), uma denúncia ao uso excessivo de parafernálias tecnológicas, (tablet, smartfone e etc…) construída em cima de um sample obsessivo e inquietante, que marca o ritmo desses robôs tristes, perdidos num panorama urbano cinza, onde os gestos repetitivos nos deixam todos iguais e indiferentes. Na sequência, vem duas faixas nas quais o conceito de solidão se torna ainda mais presente, mas nunca asfixiante, graças às texturas sonoras finamente trabalhadas e tecnicamente perfeitas.

Antes de continuar, é preciso lembrar que esse disco foi apadrinhado pelo guru do rock alternativo Brian Eno, que também está presente nas faixas “You and me” e a conclusiva “Heavy seas of love”, isso explica muito sobre as atmosferas intimamente obscuras e oníricas presentes nos 46 minutos desta viagem sonora.

Destaque também para a música “The Selfish Giant”, que se desenvolve em cima de um beat enxuto, um piano quase jazz e uma voz delicada, mas intensa, assim como o mar num dia de calma, Damon coloca em discussão as relações de um casal de longa data: “É difícil ser um amante quando a televisão está ligada e nos olhos não têm mais nada”, mais uma vez emerge o vazio, mas desta vez numa visão bem introspectiva.

Um disco que podemos definir, sem medo de cair no clichê, como maduro artisticamente, devido ao caráter intimista que o torna um produto sincero, e também do ponto de vista mais técnico, de ótima qualidade.

Paz!

Mauro Lussi

Coordenador de programação musical e DJ da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você confere de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar.

Segunda-feira

1. Everyday Robots

2. Hostiles

Terça-feira

3. Lonely Press Play

4. Mr. Tembo

5. Parakeet

Quarta-feira

6. The Selfish Giant

7. You and Me

Quinta-feira

8. Hollow Ponds

9. Seven High

Sexta-feira

10. Photographs (You are Taking Now)

11. The History of a Cheating Heart”

12. Heavy Seas of Love

Marcado como

Opinião dos Leitores

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos Obrigatórios *


Rádio UFSCar

Tocando agora
TITULO
ARTISTA