Daft Punk – Random Access Memories

Escrito por em 27/05/2013

Nostalgia nunca será a primeira palavra a passar pela cabeça ao se falar de Daft Punk. Já que estamos falando de um duo de música eletrônica, cuja identidade visual é toda calcada na premissa de que seus integrantes são robôs intergalácticos, vindos do futuro. O próprio som dos caras acompanha essa ideia – como não ouvir à intrincada mistura de influências criada por Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem Christo e não acreditar que esse som vem mesmo de um tempo anos-luz à frente do nosso? É de se surpreender, então, que depois de oito anos em silêncio, o Daft Punk volte com tudo, lançando um álbum como Random Access Memories.

Não é a primeira vez que o grupo presta homenagem às suas influências. O aclamado Discovery, por exemplo, era assumidamente um amálgama de referências passadas, reinventadas pelo filtro do Daft Punk. Ainda assim, os robôs nunca mergulharam tão fundo no passado quanto  neste novo trabalho.

Random Access Memories vê um Daft Punk – pasmem – orgânico. Essa mudança não é por acaso, Bangalter e Homem-Christo estão claramente elaborando um discurso (bem crítico, diga-se de passagem) em relação à música atual (e, sobretudo, à EDM, movimento de música eletrônica que o próprio grupo apadrinhou).

Seria muito fácil para o Daft seguir a mesma fórmula estabelecida por seus trabalhos anteriores, mas o que o duo faz em RAM é uma empreitada corajosa pela memória, em busca da essência da própria dance-music e do que a faz ser chamada de “dance”. É uma constatação musical de que, às vezes, é necessário dar um passo – bem largo – para trás e contemplar, antes de poder avançar novamente. Naturalmente, isto vai dividir os fãs de Daft Punk. Se, por um lado, toda a hype em volta do lançamento fez muita gente se sentir “traída” depois de ouvir o disco, também tem uma galera que vai simplesmente balançar a cabeça e se identificar com a mensagem que os franceses tentaram passar.

RAM não é um álbum impecável. Em muitos momentos parece que o grupo recicla demais as mesmas ideias, e vai um tanto longe demais na homenagem. No entanto, quando a dupla acerta na dose e realmente dialoga com suas influências, o resultado é simplesmente maravilhoso. Isso acontece nos minutos finais de “Get Lucky”, quando a orquestração eletrônica entra sem aviso no meio de um funk dançante e os robôs finalmente ganham voz. Coisa similar ocorre  na gigantesca “Giorgio By Moroder”, quando o click para e adentramos uma viagem psicodélica que atinge seu clímax num solo de bateria brilhantemente executado.

Com 72 minutos de duração, Random Access Memories é um álbum de difícil digestão. Não é incomum encontrar faixas que extrapolam a faixa dos 5 minutos e pelo menos duas odisséias musicais se fazem presentes. O duo exagera nas repetições para criar um ambiente de transe e, ainda,  a produção é bem anos 80 (claro). Diferente do que se levaria a acreditar, o Daft Punk não se encontra descaracterizado em RAM: a impressão que fica  é a de que estamos recebendo transmissões intergalácticas da mesma nave que nos deu Homework, Discovery e Human After All.

Com Random Access Memories, Daft Punk consegue, ao mesmo tempo, fazer um tributo às suas inspirações e apontar para toda uma geração de mestres da manipulação digital, um futuro mais sincero, mais orgânico. Reiterando o que já li por aí, se o Deadmou5 começar a tocar guitarra em seus sets futuros, a culpa é do Daft Punk.

Henrique Gentil
Bolsista em programação musical da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar.

segunda-feira
Give life back to music
The game of love
terça-feira
Giorgio by moroder
Within
quarta-feira
Instant crush
Lose yourself to dance
Touch
quinta-feira
Get lucky
Beyond
Motherboard
sexta-feira
Fragments of time
Doin’ it right
Contact

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