Blur – The Magic Whip

Escrito por em 11/05/2015

É isso aí companheiro, pode acender as velas e tirar a guitarra enferrujada do armário que finalmente, após 12 anos de espera, o Blur tá de volta. Queridinha da rapaziada que cresceu ouvindo discos clássicos da juventude anos 90 como o Parklife (Blur), What’s The Story Morning Glory? (Oasis) e Slanted and Enchanted (Pavement), o retorno do quarteto mais britpopiano de Essex pode não ser uma surpresa tão grande assim, se considerarmos que, já há um tempo, os caras estão em turnê juntos e, eventualmente, soltando música nova aqui e acolá (como a péssima e preguiçosa “The Puritan”, de 2012).

E se engana quem pensa que os caras voltaram com a mesma graça de sempre. Na real, o novo disco tá bem longe de ser inspirador como foram seus primeiros registros. Se no começo existia ali uma grande dose de sinceridade e despretensão, traduzida em riffs de guitarras descompassados e versos sobre idiossincrasias dos ingleses médios, hoje o que temos são músicos mais maduros e mais interessados em se deixar levar por observações mais profundas a respeito do mundo. Obviamente, a idade e a experiência fazendo valer os seus papéis. E não que isso seja ruim, é compreensível que Damon Albarn e Graham Coxon, a dupla de compositores da banda, já não tenham mais o mesmo espírito juvenil de outrora (e nem seria cabível que tivessem), mas é inevitável apontar que, em certos momentos, a coisa toda pareça tender pra uma complexidade exacerbada, ou uma espécie de egotrip da dupla.

Mas, não sejamos tão críticos assim também, a diversão ainda está ali. A começar pela própria história de criação das músicas e do disco. Reunidos para um show em maio de 2013 na cidade de Tokyo, no Japão, a banda não esperava que o festival fosse cancelado de última hora e que, devido ao imprevisto, pudessem contar com um espaço de cinco dias livres na movimentada agenda de todos os integrantes. O resultado? Ao invés de ficarem em casa a reclamar dos imprevistos da vida, partiram em busca de inspiração e convívio em grupo em meio a povoada cidade de Hong Kong. Instalaram-se apenas os quatro no Avon Studio, um pequeníssimo estúdio sem janelas, e de lá só saíram quando a coisa deu no saco. Uma bela história e que em nada teria resultado se não fosse a persistência de Graham em convidar o antigo produtor da era de ouro do Blur, Stephen Street, para dar um jeito no material e buscar alguma coerência em meio ao amontoado de jams gravadas em território chinês.

Pouco tempo depois, Damon Albarn, que já andava em um vibe toda introspectiva e solitária com o lançamento de seu primeiro disco solo Everyday Robots (2014), volta então para Hong Kong e de lá conclui as letras que viriam a tomar conta das melodias de The Magic Whip, o oitavo disco do grupo – e sétimo da dupla Damon & Graham, já que o último não participou por completo de Think Tank (2003) – lançado pela Parlophone Records. O álbum, até por conta de sua própria gênese, vem recheado de referências a cultura oriental, passando pela capa do sorvetinho neon com letras chinesas, até os clipes lançados e os nomes das músicas como “Pyongyang” e “Ong Ong”.

Mas como estava falando, aqueles que ansiavam pelo mesmo Blur dos anos 90 podem não ficar tão satisfeitos com o lançamento, portanto a dica é: superem. Canções que remetem mais ao passado no britpop, como os singles “Go Out”, “Lonesome Street” e a saudosa “I Broadcast” existem, isso é inegável, mas são apenas uma das características do álbum. Outras trazem muito mais da experiência de Damon com o seu trabalho solo e com o Gorillaz como a “Thought I Was A Spaceman”, “New World Towers” e “Pyongyang”, canções que chegam a decepcionar pela tentativa fracassada de soar complexo e moderno ao mesmo tempo, caberiam muito bem aos trabalhos de Albarn, não ao Blur. A surpresa, no entanto, fica mesmo por conta das canções que conseguem apresentar um pouco de novidade dentro do próprio contexto da banda, como as ótimas “Ice Cream Man”, “Ghost Ship” e até a saudosa “There Are Too Many Of Us”, que mais parece um tributo às próprias influências setentistas do grupo. Destaque também para “My Terracota Heart”, a canção “fofa” do disco, em que Damon escreve sobre a sua complicada relação com o parceiro e genioso Graham.

Não há dúvidas de que só o fato de ter disco novo dos caras rolando torna o ano de 2015 um ano especial para o mundo da música. A banda, que é senão “a”, com certeza “uma das” mais influentes das últimas duas décadas em se tratando de rock, acabou virando referência de experimentação, conseguindo sempre direcionar, com responsabilidade, novos caminhos musicais dentro do gênero. E se a atual conjuntura da coisa não permite mais que o Blur carregue aquela ingenuidade divertida de antes, que a banda continue mesmo em seu caminho mais maduro e em busca da sintonia perfeita entre os objetivos musicais de seus integrantes. Aguardamos novos (e breves) lançamentos!

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Lonesome Street
  2. New World Towers

Terça-feira

  1. Go Out
  2. Ice Cream Man

Quarta-feira

  1. Thought I Was Spaceman
  2. I Broadcast
  3. My Terracotta Heart

Quinta-feira

  1. There Are Too Many Of Us
  2. Ghost Ship

Sexta-feira

  1. Pyongyang
  2. Ong Ong
  3. Mirrorball

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