Anohni – Hopelessness

Escrito por em 09/05/2016

Se você viveu os anos 2000 como alguém que curtia se aventurar por bandas e artistas mais alternativos, é bem provável que já tenha ouvido falar da ótima Anthony and the Johnsons. Com sua mistura de música pop e barroca, o grupo foi ganhador do Mercury Music Prize com I’am a Bird Now (2005), álbum desde então colocado como um dos mais relevantes para a história da música nos anos 2000. Sem lançar um disco de estúdio desde o final da década, a agora compositora britânica, radicada nos EUA, Anohni, mulher trans, antes conhecida como Antony Hegarty, retorna aos holofotes com seu primeiro disco, pós mudança de sexo, para nos trazer um trabalho que, em sua essência, é um protesto contra o contestável establishment e suas problemáticas contradições.

Para dar vida à obra, a artista se juntou a dois dos produtores que estão na vanguarda da música eletrônica ao redor do mundo. Hudson Mohawke é a peça que garante que Hopelessness tenha o mesmo potencial pop que fez o produtor ser almejado por tantos do atual hip hop norte-americano, como Kanye West, A$AP Rocky e Azealia Banks. Por outro lado, Oneohtrix Point Never, o segundo braço musical da artista, dá o passo torto na obra, garantindo texturas experimentais e progressões tão corajosas quanto as letras que a compositora produz. E a parceria deu tão certo, que a voz melancólica e singular de Anohni parece, enfim, ser capaz de atingir o grande público ao redor do mundo e garantir aos ouvintes um pouco mais do que a usual massagem no ego e capas de revista de fofoca.

“Drone Bomb Like Me” coloca em xeque a atual política militar norte-americana, ao apresentar a história romântica de uma garota afegã que teve os pais assassinados durante um ataque com drones, restando a ela somente a alternativa de torcer para que seja a próxima a ser atingida também. “4 Degrees”, parte do ponto de vista do ser humano que não acredita nos impactos ambientais que o aquecimento global tem causado ao mundo para criticar o nosso constante descaso com o tema, que há anos já é mais do que urgente. “Watch”, de forma irônica e criativa, fala dos abusos e exageros do governo que pratica uma vigilância extrema sob seus cidadãos. “Execution” trata da existência da pena de morte em uma sociedade que se diz tão democratica, sendo essa mais uma herança óbvia do conservadorismo intrínseco da sociedade norte-americana.

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E Anohni não mede palavras quando endereça uma faixa diretamente ao presidente Obama, para relatar todo o descontentamento de seus eleitores com a não correspondência de expectativas. Na faixa mais experimental do álbum “Violent Men”, a artista critíca a posição vantajosa que o homem opressor e violento desfruta em uma sociedade patriarcal. “Crisis” retoma o tema das políticas pacifistas falidas; e “Hopelessness” resume os temas do álbum ao comparar a humanidade com um vírus que se alastra e acaba cada vez mais com o planeta.

Você não terá a ousadia de colocar Anohni ao lado das grandes divas do pop que também lançaram discos neste ano, mas deveria. Com um discurso coeso e corajoso, a artista consegue trazer uma mensagem para muito além das discussões intermináveis de Facebook, carregando com sua voz barroca e melancólica uma enorme crítica ao modelo de sociedade imposta por gerações e gerações anteriores à nossa. Não há dúvidas de que Hopelessness já está para a música como um dos melhores lançamentos do ano, dê chance ao diferente e escute um pouco do que esta mulher tem a dizer.

Raul Ribeiro, programador musical na Rádio UFSCar


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta, às 15h30. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no sábado, às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

1 – Drone Bomb Me

2 – 4 Degrees

Terça-feira

3 – Watch Me

4 – Execution

Quarta-feira

5 – I Don’t Love You Anymore

6 – Obama

7 – Violent Men

Quinta-feira

8 – Why Did You Separate Me from the Earth?

9 – Crisis

Sexta-feira

10 – Hopelessness

11 – Marrow

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