Adrian Younge & Ghostface Killah – Twelve Reasons To Die II

Escrito por em 13/07/2015

Em meados de 2013 foi lançado o épico Twelve Reasons To Die. Um disco que traz Ghostface Killah como o seu alter-ego de longa data Tony Starks (uma versão reciclada do heroí da Marvel Homem de Ferro), que atua como funcionário para os DeLucas, uma família Italiana que comanda a máfia em 1960. Ele decide então, abandonar o trabalho sujo. Porém, ele acaba se apaixonando pela filha do patrão no processo e, posteriormente, é assassinado por seu antigo empregador e seus comparsas por traição. Suas cinzas são prensadas em doze LP’s que, quando tocados, trazem Stark de volta ao mundo dos vivos como Ghostface, um espírito com sede de sangue, pronto para a vingança. Isso parece enredo de uma história em quadrinhos, não é?!

O melhor de tudo é que esse é o enredo de uma história em quadrinhos. Junto com o lançamento do disco, a historia foi lançada como minissérie, dividida em seis exemplares pela Soul Temple Records. É importante lembrar que estamos falando de um rapper que nomeou seu pseudônimo, inspirado em um dos vingadores, e que convidou um artista da Marvel para fazer a capa do disco Wu – Massacre. Ghostface sempre foi apaixonado por quadrinhos e sua rima narrativa parece combinar com o meio. Porém, Twelve Reasons To Die, musicalmente falando é áspero, ele tenta encaixar muitas peças em um único e ambicioso álbum conceitual. Como um todo, é limitado em seu conteúdo e um tanto quanto preguiçoso nas transições.

Agora veja bem, se Twelve Reasons To Die é uma história em quadrinhos, Twelve Reasons To Die II é a adaptação cinematográfica, ou um reboot da saga.  A matéria prima é a mesma, mas a execução supera o primeiro em diversos setores. Começando pelo fato de o segundo disco dispor de um orçamento bem maior que o primeiro e, em segundo lugar, pelos convidados trazerem mais peso à obra. Os artistas envolvidos parecem estar mais estimulados, e há, sem dúvida, uma consideração maior com o público. Mas, principalmente, Twelve Reasons To Die II foi capaz de acertar onde seu predecessor falhou, graças ao benefício da retrospectiva. Encontrando um foco adequado e prestando mais atenção aos detalhes, Ghostface e Younge fizeram um trabalho bem feito, ao criar um universo alternativo.

Parece que o disco foi melhor pensado e os convidados melhor escolhidos dessa vez. O rapper RZA, por exemplo, narra algumas passagens um tanto quanto complicadas para o rap. Mesmo assim, ele executa com muita classe. E a maneira crua como Younge cria uma Nova Iorque sinistra nos anos 70 é excelente, mas a chave da narrativa está com Raekwon, que entra no disco como Lester Kane, um iniciante rei do crime que está em guerra com os DeLucas. Ele funciona como linha condutora para o Tony Stark de Ghostface, que poderia contar a história inteira apenas com metáforas. Porém, ele não o faz, aqui ele é menos sutil. Alguma coisa aconteceu com ele ao rimar ao lado de Raekwon. Em “King of New York”, ele descreve Kane de maneira gráfica. Segundos depois, Raekwon faz seu papel como Kane, e o intercâmbio entre os dois traz vida para o personagem, que desempenha um papel fundamental na trama. Raekwon é denso e cheio de lirismo. Ele atua de maneira perfeita nas sequências de ação como em “Return of the Savage” e “Blackout”, em que tiros são trocados.

Mas Ghostface ainda é o centro das atenções em Twelve Reasons To Die II. Apesar da verdadeira estrela por trás desse belo trabalho ser Adrian Younge. Ele é a alma do disco, o agente obscuro que criou esse vasto universo, a interação entre os personagens, além de adicionar um clima tenso e sombrio para uma cidade ficcional. Por sinal, é Younge que faz o refinamento musical, os arranjos e a batida no formato de jazz sombrio, ora assustador, ora enlouquecedor. As transições e texturas presentes na obra te levam para um filme de suspense, tudo fruto da deturpada mente de Younge o maestro do soul que comanda essa ópera de rappers. Olhando por esse lado, Twelve Reasons To Die II é mais genial do que parece. Não é só a mistura do rap com o jazz, até porque, Ghostface já fez isso, esse ano, com a banda Badbadnotgood no disco Sour Soul. A questão vai além do jazz. É a construção de um universo apenas com o som, é fazer o uso da lírica de artistas como Ghostface Killah, RZA e Raekwon, para atuarem como trovadores modernos. Algo como uma ressignificação para o movimento hip hop e o rap, mais especificamente.

Há quem diga que o lirismo do rap se esgotou, mas eu não concordo, acredito que Twelve Reasons To Die II é apenas uma das inúmeras provas de que o rap se mantém lírico e vivo. Porém, como tudo na vida, ele se renovou e agora chega para o mundo dentro de novos contextos. E se você ouviu o disco e prestou bastante atenção, a saga de Ghostface não termina por aqui, não me surpreende se daqui a dois anos Twelve Reasons to Die III for anunciado.

Hugo Safatle

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h30, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Powerfull One
  2. Return of The Savage feat. Raekwon and Rza

Terça-feira

  1.   King of New York feat. Raekwon
  2.   Rise Up feat. Scarub
  3.   Daily News

Quarta-feira

  1. Get The Money feat. Vince Staples
  2. Death’s Invitation Interlude feat. Rza
  3.  Death’s Invitation feat. Scarub, Lyrics Born, and Chino XL

Quinta-feira

  1. Let The Record Spin Interlude feat. Rza
  2. Let The Record Spin feat. Raekwon

Sexta-feira

  1. Blackout feat. Raekwon
  2. Resurrection Morning feat. Raekwon and Bilal
  3. Life’s A Rebirth feat. Rza
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