Ana Tijoux – Vengo

Escrito por em 31/03/2014

Algumas semanas atrás, a cantora franco-chilena Ana Tijoux lançou “Vengo”, o primeiro single do seu novo álbum, o quarto solo da carreira, que é também a faixa título do disco que foi lançado oficialmente em 21 de março.

“Vengo” é a Pacha Mama que chega em busca de uma resposta da história de uma terra saqueada, uma pedrada sonora gritada com os pulmões cheios, perguntando a verdade sobre todos os abusos perpetuados contra o planeta e contra nós mesmos, a Pacha Mama que tenta nos lembrar que sem os outros não somos nada.

A faixa seguinte “Somo Sur”, Ana fez em parceria com a rapper britânica de origem árabe Shadia Mansour, conhecida como a primeira dama do hip hop árabe, desde sempre envolvida na causa palestina; os alvos são as grandes potências imperialistas como os bancos e corporações multinacionais que estão reescrevendo a geografia política dividindo o mundo em Norte e Sul, onde este último é a sobra que ainda dá para explorar, chamado, anacronicamente, de terceiro mundo. Tecnicamente, música que mais se aproxima das novas tendências rotuladas como global beats, em que os graves são enfatizados e fornecem uma sólida base pelas rimas bilíngues, capazes de quebrar as fronteiras daquela geografia citada acima.

Continuando, o manifesto feminista latino-americano “Antipatriarca” abre com uma batida ancestral na qual se insere uma flauta e uma guitarra, que poderia ser aquela dos Inti-illimani, exiliados também como a família dela foi nos anos 70, durante a ditadura do Pinochet. Sem dúvida, uma dos mais sangrentos golpes que ocorreram naquela época, que deu início a Operação Condor, da qual o Chile foi a incubadora.

Mas Vengo não é um disco que enxerga só o lado sombrio deste mundo, têm valores nos quais precisamos acreditar. É preciso acreditar no impossível como em “Creo em Ti” feita em parceria com o cantor Juanito Ayala. Uma solene melodia latina que flerta com o R’n’B, numa  genial construção rítmica.

Mais uma faixa que precisa ser destacada é a tribal “Rio Abajo”, o legado de um povo dono de milênios de história entra no flow hipnótico da cantora em cima de uma batida ancestral, assim como em “Oro Negro” em que a voz quente revela aos poucos uma melodia rica, uma lírica e um arranjo arrepiante.
Ana Tijoux sempre teve uma queda pelo pop, dava para entender isso desde sua parceria com Julieta Venegas com a qual gravou o dueto, em 2010, “Eres para mi”, musiquinha extremamente agradável e grudenta, na qual encontramos elementos em “Los Peces Gordos No Pueden Volar”, um reggae que brinca com um R’n’B mais comercial, embora o conteúdo lírico continue na mesma linha, rico de uma coerência e consciência política, coisa rara, nesse tempos cheios de perguntas sem respostas que muito frequentemente são “esquecidas” ou simplesmente ignoradas.

De uma coisa não temos dúvidas, Ana Tijoux chegou para dar continuidade à grande tradição musical da América Latina, assim como outros grandes nomes que a precederam. Quem entende não precisa de citações.

Paz!

Mauro Lussi
Coordenador de programação musical e DJ na Rádio UFSCar

A seguir, as músicas que ouve de segunda a sexta-feira, às 15h45, aqui na Rádio UFSCar.

Segunda-feira
1. Vengo
2. Somos Sur (feat. Shadia Mansour)
3. Antipatriarca
Terça-feira
4. Somos Todos Erroristas (feat. Hordatoj)
5. Er-rrro-r
6. Los Peces Gordos No Pueden Volar
Quarta-feira
7. Creo en Ti (feat. Juanito Ayala)
8. Río Abajo
9. Oro Negro
Quinta-feira
10. Delta (feat. MC Niel)
11. No Más
12. Todo Lo Sólido Se Desvanece en el Aire
Sexta-feira
13. Emilia (feat. RR Burning)
14. Rumbo al Sol
15. Mi Verdad

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