Bosnian Rainbows – Bosnian Rainbows

Escrito por em 15/07/2013

O fim do The Mars Volta no começo desse ano marcou não apenas o fim de uma das bandas mais importantes para o rock progressivo da atualidade, como também encerrou uma longa e produtiva parceria de mais de 20 anos entre duas mentes criativas por trás do projeto: o vocalista Cedric Bixler-Zavala e o guitarrista Omar Rodriguez Lopez. Os dois figuravam na mesma banda desde 1993, quando o At The Drive-In se lançava ao cenário musical para se tornar ícone cult do post-hardcore.

É triste que o Mars Volta tenha encerrado suas atividades logo depois de lançar um dos melhores álbuns de sua carreira (Noctourniquet, de 2012, ocupa lugar fácil entre os melhoes discos da década) e, certamente, vai ser difícil ficar sem músicas novas do grupo, mas talvez nem tudo esteja perdido.

Fato é que após o anúncio do fim, tanto Omar quanto Cedric revelaram projetos novos, misteriosos e instigantes. Bosnian Rainbows é um deles, com Deantoni Parks (baterista do Mars Volta durante o período Noctourniquet) e seu antigo parceiro Nicci Kasper, e nos vocais, Teri Gender Bender (a riot girl que comandava o Le Butcherettes).

Lançando seu debut menos de seis meses depois do rompimento com a antiga banda, Omar se esforça para eliminar qualquer paralelo com o Mars Volta – a começar por sua postura perante o grupo. Diferente do que acontecia com o Mars, em que o guitarrista tomava as rédeas da produção e dos arranjos, deixando pouco espaço para que o resto da banda contribuisse nas composições, em Bosnian Rainbows observa-se um esforço mais colaborativo: Omar não é mais o líder tirano dos tempos do Mars Volta, o grupo trabalha mais como um coletivo. É interessante notar como músicos tão virtuosos, conseguem segurar os excessos, e transformar o álbum  de estreia numa obra tão rica e, ao mesmo tempo, digerível.

O disco abre pesado com “Eli”, rock progressivo completo com sintetizadores ambientes, que compõem um crescente até a entrada da banda toda que depois quebram o ritmo num riff de guitarra sombrio, para terminar numa rápida jam instrumental. Teri Gender Bender enfeita tudo isso com uma melodia sinuosa de vocais, mandando versos tão poderosos quanto sua voz. “Eli”soa quase como um Mars Volta um tanto mais comportado, com um toque mais retrô – mas qualquer paralelo com o antigo grupo de Omar para por aí, pois em seguida  vem “Worthless” e aí o verdadeiro Bosnian Rainbows desabrocha.

Faixa leve, quase dream pop, “Worthless” é tão radiofônica quanto desafiadora. Tem sempre muita coisa acontecendo ao mesmo tempo – mas esse caos sonoro é sempre muito bem assimilado num som único e coeso. Ora pesado, experimental, psicodélico, ora pop e de fácil assimilação. Passando pelo prog (“Mother father set us free”), pela new wave (“Torn maps”), pela música eletrônica (“Dig right in me” que conta também com um riff funkeado estilo Red Hot Chili Peppers) e pelo indie pop (Morning sickness), Bosnian Rainbows trabalha com um pouco de tudo e, frequentemente, tudo ao mesmo tempo. A produção meio anos 70/80 dá um charme  às composições e encaixa o disco num lugar confortável entre o nostálgico e o inovador.

O destaque vai para a performance vocal de Teri Gender Bender, que consegue alternar facilmente vocais calmos, rosnados e agressivos (vide “The eye fell in love” e “Turtle neck”).

Deantoni Parks  que provou ser um verdadeiro drum machine em Noctourniquet, agora mostra-se contido – mas não menos preciso – nunca se sobressaindo, mas sempre providenciando o impulso necessário para a faixa decolar. Omar Rodriguez-Lopez também assume uma postura parecida. É claro que ainda há uma boa dose de experimentalismo em Bosnian Rainbows, mas o resultado final preserva um certo apelo comercial inexistente nos projetos comuns de Omar.

Em todos os aspectos, Bosnian Rainbows é uma banda completamente diferente de qualquer outro trabalho de seus integrantes, um grupo com vida própria, com capacidade de trilhar seu próprio caminho sem andar à sombra de seus antecessores. O disco homônimo é o que qualquer banda poderia pedir para sua estreia: um disco seguro, bem estruturado e coeso, que experimenta na medida certa para criar aquela curiosidade a respeito do que o grupo será capaz de fazer na próxima vez.

Henrique Gentil
Bolsista em programação musical da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar

segunda-feira
Eli
Worthless
terça-feira
Dig right in me
The eye fell in love
I cry for you
quarta-feira
Morning sickness
Torn maps
quinta-feira
Turtle neck
Always on the run
sexta-feira
Red
Mother, father, set us free

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