João Donato – Donato Elétrico

João Donato – Donato Elétrico

Faz cinquenta e três anos que João Donato presenteou o mundo com o seu revolucionário e primeiro álbum instrumental chamado Muito à Vontade (1963), não era bossa porque não tinha as melodias bonitinhas de João Gilberto, também não era erudito porque o som era torto demais para isso. A realidade é que era nada mais nada menos que o reflexo sonoro da mente genial de Donato, a obra foi um sucesso para os entusiastas da música, mas não tão bem-sucedida no sentido comercial da coisa, fato que aparentemente nunca incomodou o músico. Na década seguinte, recebendo os ventos da doce era da psicodelia, João Donato lança seu primeiro álbum com o uso de instrumentos elétricos como o Fender Rhodes, sintetizador Moog, entre outros. O nome dessa pérola é A Bad Donato (1970), um marco não só para a carreira do músico, mas para a música brasileira como um todo. Era como se ele fosse um Keith Emerson brasileiro ou o Keith Emerson era um João Donato inglês. A questão é que A Bad Donato introduziu à MPB uma sonoridade até então inédita. Porém, três anos depois, ele vira o jogo e lança Quem é Quem (1973), o primeiro de muitos com letras cantadas e o registro que marca o fim da onda instrumental do cantor, pelo menos até agora.

Atualmente, com oitenta e um anos de idade e sessenta e três de carreira, João Donato se reinventa e retorna a todo o vapor com teclado elétrico e sintetizadores em um novo álbum instrumental que transpira o espírito dos anos 70 e traz ainda uma sonoridade completamente contemporânea. Estamos falando aqui do Donato Elétrico (2016) novo álbum do músico com dez faixas, todas de sua autoria. No entanto, ele não está sozinho, o disco foi gravado ao lado de grandes nomes da música paulista como o grupo Bixiga 70, Marcelo Cabral (Criolo), Zé Nigro (Russo Passapusso), além da produção de Ronaldo Evangelista e mixagem de Victor Rice (Bixiga 70). Apesar de todos esses convidados, não se enganem, João Donato faz muito mais do que só tocar seu teclado, como compositor e arranjador, ele é o capitão do navio, ele guia o time de músicos; com muito talento e experiência, ele consegue tirar o melhor de cada artista.

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A faixa que abre o disco, “Here’s J.D.”, já introduz todo o clima do álbum, a bateria à la Tony Allen abre espaço pro groove, ao lado da guitarra  suingada de Mauricio Fleury, sem contar a melodia torta de Donato que executa uma bela dança com o saxofone. A questão é que a união de instrumentos elétricos como o teclado, ao lado de instrumentos orgânicos como os metais e as cordas, traz a exata impressão da união entre o moderno e o vintage, o que funciona muito bem. Em “Urbano”, segunda faixa, os metais introduzem a agressividade, enquanto o teclado no melhor estilo “Booker T & The MG’s” traz o funk à tona. Em “Frequência da Onda” a mistura orgânica/elétrica se torna ainda mais evidente, ao mesmo tempo que as cordas apresentam uma melodia dramática, Donato traz a ruptura com um solo que parece ter saído do jogo “TRON”.

Na medida que as faixas avançam, a formação dos músicos acompanhantes também muda, provavelmente é isso que dá vida ao álbum, a unidade se mantém nas melodias e solos futuristas de Donato, mas frequenta as mais diversas paisagens sonoras no que diz respeito a arranjos e linhas melódicas. Se na faixa “Tartaruga” o ouvinte se transporta para o calor do verão, em “Soneca do Marreco” o ouvinte retorna para as ruas do Brooklyn no auge dos anos 70, sem deixar o novo milênio.

O mais impressionante de Donato Elétrico é sua capacidade de tornar um som que era vanguardista há vinte anos em uma nova referência para a modernidade. Os instrumentos usados são os mesmos utilizados em A Bad Donato, o que mudou não foram as tecnologias, mas sim, a mente de um gênio, que ao lado de um elenco de ouro, renovou suas ideias e surpreendeu novamente seus fãs. O que torna esse disco muito bom, não é o equipamento usado por um ou outro músico, mas sim a capacidade de construir, desconstruir e reconstruir algo que foi feito no passado. Não estamos falando de reciclagem musical, mas de reapropriação de uma linguagem e sua evolução. Donato Elétrico é genial, pois evolui a linguagem universal da música a um novo patamar, não é bossa, não é jazz, mas sim a expressão de um grande músico.    

Hugo Safatle, programador musical na Rádio UFSCar 95,3 FM


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta às 10h. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no domingo às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

  1. Here’s JD
  2. Urbano

Terça-feira

  1. Frequência de Onda
  2. Espalhado

Quarta-feira

  1. Tartaruga
  2. Soneca do Marreco

Quinta-feira

  1. Combustão Espontânea
  2. Resort

Sexta-feira

  1. Xaxado de Hércules
  2. G8

 

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