Jair Naves – E você se sente numa cela escura, planejando sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas.

Jair Naves – E você se sente numa cela escura, planejando sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas.

Sem sombra de dúvida, a música serve como uma válvula de escape para a humanidade, seja produzindo ou ouvindo, a música tem um valor incontestável na vida de seus apreciadores. Usada para exaltar felicidade ou remoer nossas dores, ela tem essa essência dualista que tanto nos fascina. Jair Naves parece preferir o lado doloroso de suas canções – e faz isso com maestria poética.

E você se sente numa cela escura, planejando sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas é o primeiro álbum solo do cantor, agora não mais integrante da extinta Ludovic, o lançamento vem com uma carga dramática de pesar o coração. Naves é um poeta, no sentido mais cru da palavra: é um artista. E como artista tem a habilidade de exteriorizar seus sentimentos na forma de sua arte: a música.

Conhecido por brincar com as palavras e contar histórias em suas letras, nesse álbum não seria diferente. A primeira faixa – uma das melhores do disco – “Pronto Pra Morrer ( O Poder de uma mentira dita mil vezes)”, nos insere numa atmosfera triste, de repressão e injustiça “Eu sou um homem, não um menino/ certas coisas eu não admito/ carrego um desejo de vingança reprimido/Desde que na minha casa entrou um estranho/ que encostou uma arma no meu crânio/ e eu nada pude fazer/a não ser me ver balbuciando/ febrilmente, implorando/”eu não estou pronto pra morrer!”, e é nessa vibe que o disco segue, ora  menos pesado (como na faixa na qual Jair canta sobre sua mãe “Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu”), porém sempre na atmosfera carregada e levemente sombria que permeia o disco. É esquisito pensar assim, além de ser um paradoxo gigantesco, mas mesmo com toda a melancolia e o desespero presente, o álbum ainda consegue, de alguma forma, ser “otimista”. A ideia é que os problemas estão aí, mas há alguma solução, difícil de se enxergar, mas há.

Também é possível comparar a musicalidade desse álbum com alguns momentos da Legião Urbana e a contemporânea, mas já extinta, banda Gram. Um pouco menos “religioso” que a Legião e mais ególatra – ou pessoal – que a obra do Gram, mas ainda assim com referências, seja pelas letras,  pela melodia,  pelo tom de voz de Naves; seja pela poesia, num contexto geral. Além do mais, é perceptível a influência de Joy Division e The Smiths nas três bandas citadas: o diferencial é que cada uma absorveu essa influência à sua maneira.

O rock do E você se sente numa cela escura… se apresenta muito mais do que no EP Araguari, lançado em 2010, que contava com acordes e letras mais saudosistas e “interioranas”, por assim dizer.  Enfim, o recente álbum é um disco de transição, é sobre a busca pela melhoria de sua própria vida, sobre a necessidade de escapar de uma cela escura, mesmo que a única solução seja cavar o chão com as próprias unhas.

Essa é a beleza da tristeza: a possibilidade de melhorar.

Diego Paulino
Estagiário em Programação musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você ouve de segunda a sexta , às 9h45, na Rádio UFSCar:

segunda- feira
1. Pronto Para Morrer (O Poder de Uma Mentira Dita Mil Vezes)
2. Poucas Palavras Bastam
terça-feira
3. No Fim Da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas
4. Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu
quarta-feira
5. Carmem, Todos Falam Por Você
6. Guilhotinesco
quinta-feira
7. Vida Com V Maiúsculo, Vida Com V Minúsculo
8. Covil de Cobras
sexta-feira
9. A Meu Ver
10. Eu Sonho Acordado

Revisão: Sheila Castro

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